Coisinhas que ninguém te conta sobre o maravilhoso metrô de Londres

Está na hora de contar uns segredinhos londrinos

Este post tem leves tons de humor e horror. Ninguém odeia o Underground, mas está na hora de contar uns segredinhos e mostrar que nada em nenhum lugar é perfeito.


É caro

Vamos combinar. É um dos melhores sistemas metroviários do planeta. Conecta Londres por todos os cantos, norte à sul, leste à oeste. Dá pra chegar à aeroportos, museus, casa do crush e além disso raramente atrasa e ainda funciona 24 horas no final de semana. E a Victoria Line, a linha mais rápida, eficiente e amada desse reino merece uma menção honrosa. Mas isso tem um preço e acaba sendo bem grande se você for pegar metrô todo dia e morar na zona 6 (o preço sobe junto com a distância). Imagina gastar mais do que quinhentos reais por semana em transporte público.

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Fede
Talvez cada estação ou cada linha tenha um cheiro diferente. Nem sempre cheira mal, (mentira, cheira sim), mas às vezes tem cheiro de comida usada e sem amor, junto com xixi de bêbado, mofo e fumaça tóxica. Ah, certas axilas devem ser evitadas à todo custo.

É sujo para caramba
Aquele estofadozinho confortável é simplesmente a coisa mais imunda da Inglaterra. Ele é feito propositalmente para esconder sujeira. E pode ter certeza que de noite, os ratos fazem a festa mesmo e uns passeios por ali, onde você está encostando sua cara no momento. Mas fique tranquilo, de dia você só vê os ratos pelos trilhos ou nas plataformas.

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Gente bêbada
O problema não é a galera alegre, mas altamente e perigosamente alcoolizada ali perto dos trilhos. Socorro. Isso sem falar nos vômitos. Uma amiga minha estava voltando pra casa quando uma total desconhecida do lado vomitou em cima dela. E essa nem é a história mais nojenta do metrô. Normalmente isso acontece tarde da noite nos finais de semana, principalmente na Northern Line que passa por pontos de alta badalação e agito como Camden Town e Old Street.

Parece que você vai derreter
Não tem muita ventilação e ar condicionado não existe. Mesmo no frio, se passa calor dentro. Mas no verão é quando o bicho pega. Mesmo vazio, aquilo fica um forno do infernos e parece que não tem ar. Porque não tem mesmo. E sim, o cheirinho de CC só piora, viu?

É cheio (de gente sem noção)
Grande parte dos perdidos do metrô são turistas e os londrinos fazem questão de parar e ajudar. Porém, quando param do lado esquerdo da escada rolante ou no meio da passagem para amarrar o tênis, colocam sacolas de compras em assentos, não esperam quem está dentro sair primeiro, empacam a catraca porque não acha o Oyster não tem como defender. Ainda, a estação Oxford Circus fica tão lotada na hora do rush (em qualquer dia da semana) que a fila para entrar bloqueia as calçadas. Pelo menos ninguém vai esmagado. Existe um controle e fiscalização, o tal do Crowd Control  quando o movimento é maior do que o esperado (inclusive se há eventos, shows e jogos de futebol).

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É meio pra baixo
Tirando os incríveis artistas que cantam ou tocam no meio das estações e deixam uma vibe maneira, os passageiros do trem podem ser um tanto… diferente do Brasil? Às vezes você escuta umas conversinhas aqui, umas risadinhas ali, porém no geral é bem quieto. Todo mundo com cara séria, ninguém nem olha pra sua cara. Se olhar, também é estranho, ok?

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Um tour por Southwark, antigo paraíso proibido de Londres

O outro lado do Rio nem sempre foi moderno e cult. Descubra os antigos e os novos segredos da região

Durante séculos, a London Bridge era o único meio de cruzar o Rio Tâmisa. Logo, para chegar até o sul de Londres era preciso passar por Southwark, que na época estava fora dos limites da cidade. A área acabou crescendo e se desenvolvendo através do dinheiro do comércio “turístico”, provindo de vários pubs, prostíbulos e até mesmo atividades proibidas como caça de urso e touro. Era como um Red Light District inglês.

Bankside era o lugar mais famoso da Inglaterra para entretenimento. Duas vezes por semana, mais de mil pessoas entravam no anfiteatro de madeira para assistir touros e ursos mastigando ferozmente os ossos de cães. Acredite se quiser, mas durante o reino da Rainha Elizabeth I era o esporte mais popular em Londres.

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Getty Images

Com o passar do tempo, Southwark foi se consolidando como importante região teatral. Hoje são várias as salas de teatro como o famoso The Old Vic e Young Vic – sua “irmã” mais nova com peças mais experimentais – além do Union Theatre, Blue Elephant Theatre, Menier Chocolate Factory – uma antiga fábrica de chocolate, Southwark Playhouse, Theatre Peckham e o Rose Playhouse, o primeiro teatro elisabetano, erguido em 1587. Aberto ao público até os dias de hoje, possui exibições sobre sua história e  também produções de obras contemporâneas, palestras e outros eventos.

Além desses, você pode curtir peças de teatro estreladas por atores famosos e ‘pré-apresentações’ de concertos musicais no National Theatrelocalizado às margens do rio.


Captura de Tela 2018-09-06 às 21.33.16 ONDE TURISTAR

Ao longo do Tâmisa, ficava o Globe Theatre, no qual Shakespeare era acionista. Foi incendiado em 1613, reconstruído no ano seguinte, fechado pelos puritanos em 1642 e derrubado não muito tempo depois. Próximo ao local original, foi construído o Shakespeare’s Globe, uma recriação dos teatros nos quais eram encenadas suas obras. Parada obrigatória para os admiradores do dramaturgo. Saiba como comprar ingressos de teatro aqui.

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Hoje em dia, “o outro lado de Londres” concentra prédios medievais e modernos como o The Shard, o edifício mais alto de Londres e Europa Ocidental com 310 metros de altura. Por ali você também encontra o Tate Modern. Um dos mais renomados museus de arte moderna e contemporânea do mundo, o Tate abriga exposições permanentes e muitas itinerantes. Em seu acervo permanente, você apreciará obras como ‘As Três Dançarinas’ de Pablo Picasso, ‘Marilyn’ de Andy Warhol, ‘O Beijo’ de Auguste Roudin. No sétimo andar há um restaurante com vista panorâmica do rio Thames e da cidade de Londres. Para quem quiser apenas um lanche, o museu também possui em café à margem do rio. Com acesso pela estação de metrô Southwark ou atravessando a Millenium Brigde a partir da St. Paul’s Cathedral, é fácil chegar.

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Outro museu imperdível nos arredores, é o Imperial War Museum. Com o slogan “War Shapes Lives”, o museu conta a histórias das pessoas que viveram durante a guerra e mostra vários objetos da época. Entre as exibições, há pinturas e outras obras artísticas da maioria dos conflitos da Humanidade. Não perca as exposições que falam sobre a Primeira e Segunda Guerra Mundial e sobre o Holocausto. Saiba mais sobre os museus incríveis de Londres aqui.


Captura de Tela 2018-09-06 às 21.38.24 ONDE MATAR A FOME

Mercato Metropolitano
42 Newington Causeway

Primeiro mercado comunitário sustentável que tem como objetivo conscientizar e incentivar as pessoas à apoiarem suas comunidades locais. São várias opções de street food do mundo todo com uma faixa de preço entre £10 e £20 por pessoa.

Where The Pancakes Are
85a Southwark Bridge Rd

Lugar perfeito para quem realmente ama panquecas. A massa é feita com farinha orgânica que inclui trigo sarraceno, responsável por reduzir os níveis de colesterol e açúcar no sangue. Possui opções doces e salgadas, além de versões vegetarianas, veganas e sem gluten. Captura de Tela 2019-02-10 às 19.57.31.png

Borough Market
8 Southwark St

Dezenas de barraquinhas com frutas, pães, queijos, petiscos, massas, verduras, pratos quentes, chocolates e outras variedades do mundo todo. Tente chegar cedo, entre às 10h e às 11h para evitar a multidão ou se preferir descontos, vá por volta das 15h.

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6 Southwark Street

Não se desanime com a fila que pode demorar entre 30-45 minutos. Vale a pena esperar. O restaurante é pequeno, mas tem atmosfera agradável, as massas são extremamente saborosas e o preço super amigo com pratos a partir de £4! 

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Heddon St Kitchen, um dos restaurantes “baratinhos” do Gordon Ramsay

Vale a pena conhecer um dos vários restaurantes da rede do famoso chef Ramsay?

Gordon Ramsay nasceu na Escócia, cresceu em Stratford-upon-Avon e ganhou fama no mundo todo. No total, seus restaurantes já ganharam 16 estrelas Michelin.

Heddon Kitchen Street é um deles e fica pertinho de Piccaddily Circus, numa pequena travessa da Regent Street. Com uma decoração bonita e moderna, é considerado “baratinho” porque os outros são mais alta gastronomia e têm preços mais salgados. O seu principal oferece um menu por £185 por pessoa. Já comentei dele nesse post.

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Divulgação

O restaurante é considerado uma brasserie europeia. Possui menu a la carte, no qual o carro chefe é o “beef Wellington”, bife de filé com patê e duxelles, que é então envolvido em massa folhada e assado.

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Mas o que vale mais a pena é o menu especial de almoço & jantar (ou como eles chamam “pré-teatro”). Durante os meses mais quentes, alguns pratos podem variar e o “summer menu” inclui uma bebida (taça de vinho rosé ou cerveja).

2 pratos £19
Entrada + prato principal OU prato principal + sobremesa

3 pratos £23
Entrada + prato principal + sobremesa

Acompanhamentos custam £5

*preços de 2018

Pedi o hambúrguer. A carne era bem grande e de qualidade, mas com certeza não foi o mais saboroso que comi. No menu a la carte, custa £18,75 e inclui batata frita. De sobremesa, escolhi o “ice cream bar”. O nome chama a atenção (principalmente de crianças como eu), mas não achei nada demais. Tinha casquinha ou potinho e vários chocolates para por em cima. O preço a parte é £6.

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Ice cream bar

Pelos padrões de Londres, o menu é “barato”, ainda mais num restaurante que leva o nome de um chef tão renomado. Mas achei mais uma “marca”. A comida não é nada incrível (já comi melhor em lugares BEM mais baratos, quem nunca), mas além disso achei o serviço péssimo e pelos comentários no Foursquare e no Google não foi só eu. Só para lembrar que em Londres a gorjeta é comum, mas aqui já inclui os 12,5% na conta. Muita gente também reclama que os garçons e garçonetes forçam muito a barra para você pedir bebida alcoólica. E parece que se você não pedir um bom drink, cometeu um crime. Quem serviu a gente tava de um mau humor só e ainda errou a conta duas vezes.

Bom, essa foi minha experiência. Não foi horrível, mas simplesmente achei que não valeu a pena, não saí satisfeita mesmo gastando boas libras. É um dos restaurantes “mais baratos”, mas ainda é caro – ainda mais em libras. Se você for e tiver uma experiência mais positiva, compartilhe nos comentários!

 

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O luxuoso bairro de Chelsea, Londres

Restaurantes bacanérrimos, lojinhas fofas

Com suas casinhas fofinhas e coloridinhas na Bywater Street, mas que custam vários milhões de libras, Chelsea possui um glamour discreto. É comum “esbarrar” em celebridades nos arredores da praça Duke of York e suas lojas sofisticadas. Você pode explorar o bairro e ostentar um brunch de domingo no Bluebird (350 King’s Road), um dos preferidos dos locais.

Ou talvez fazer uma extravagância e gastar metade do seu salário no restaurante do chef Gordon Ramsay (68 Royal Hospital Road). O menu do almoço apresenta três pratos (incluindo sobremesa) por meras £70 por pessoa. Há também um menu de degustação chamado Prestige com 6 pratos por £155 e o da menu da estação com 7 pratos por £185. Serve também a la carte e opções vegetarianas.  O dress code exige camisa e blazer para os cavaleiros; nada de camisetas, shorts, roupas esportivas, nem calças jeans rasgadas e tênis de qualquer tipo.

*preços não incluem a taxa de 12,5% de serviço 
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Foto: Gordon Ramsay Restaurant


Bom, talvez seja melhor apenas se perder nas ruas cheias de personalidade sem gastar nada. E ainda dar um pulo na 
Saatchi Gallery (King’s Road) que tem entrada gratuita. Para mergulhar em arte contemporânea, sempre com novo para conferir. A galeria tem como missão mostrar jovens artistas desconhecidos, dando-lhes uma plataforma para exposição. Abre todos os dias, das 10h às 18h.

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Foto: Saatchi Gallery

 

O National Army Museum é outro passeio grátis pelo bairro. Através de todo o acervo do museu é possível entender como o exército britânico ajudou a moldar o desenvolvimento da Grã-Bretanha, da Europa e do mundo. O bacana é que funciona até às 20h toda primeira quarta-feira de cada mês.

Se o dia estiver com tempo bom, continue seus passeio até o Chelsea Embankment que oferece uma linda e tranquila vista para o Rio Tâmisa.

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Se a fome bater, a pedida é o não-é-barato-nem-tão-carésimo The Ivy Chelsea Garden lembra, como o nome sugere, um agradável e elegante jardim. O cardápio oferece ótimas opções desde o café da manhã até o jantar. Serve waffles deliciosos por £8.95.

Aliás, falando em jardim, o Chelsea Physic Garden (£10.50; 66 Royal Hospital Road) é o mais antigo jardim botânico de Londres  sendo aberto em 1673 e abriga cerca de cinco mil tipos de plantas. O bairro de Chelsea também fica todo florido no mês de Maio durante o Chelsea Flower Show – mostra de flores mais prestigiada do mundo, que inspira e lidera o caminho no design inovador de jardins.

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Foto: The Ivy Chelsea

 

Para comidinhas e afins mais acessíveis, o Chelsea Farmers’ Market acontece nos meses de Maio à Outubro às quartas (14h às 18h) e sábados (8h às 13h) e oferece uma excelente variedade de alimentos de alta qualidade e produtos artesanais. Durante os meses de Novembro até Abril, dá lugar ao mercado de inverno das 9h às 13h, todo sábado.

Pela King’s Road, é possível encontrar lojinhas independentes e estilosas entre as boutiques de luxo. Mas Chelsea não vai te fazer esquecer tão fácil que é um dos bairros mais exclusivos da cidade, e por ali você encontra a Cheyne Walk, onde moram as pessoas mais ricas da Inglaterra (e do mundo!). As casas chegam a custar mais de 7 milhões de libras, algumas já foram endereços dos roqueiros Keith Richards e Mick Jagger, do escritor Bram Stoker, entre outras personalidades, inclusive antigos primeiros ministros. As propriedades na Sloane Square também abrigam casas nada humildes de milionários, apelidados de Sloane Rangers.

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Foto: Rightmove UK

 

Os amantes de futebol podem fazer um tour (£19) pelo estádio do Chelsea FC, o Stamford Bridge. Para chegar até lá, a estacão do metrô mais próxima é Fulham Broadway (District Line).

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Foto: The Stadium Business

 

Para finalizar sua visita por Chelsea com chave de ouro, faça uma parada no Venchi e delicie um verdadeiro gelato italiano. São mais de 20 sabores para escolher.

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O luxo de ter uma máquina de lavar roupas em Londres

Tanque é já uma espécie extinta por aqui

Máquina de lavar roupas é praticamente um luxo em Londres. Há falta de espaço ou de dinheiro ou talvez de encanamento para a instalação. Não tem um espaço nas casas ou nos apartamentos para uma lavanderia, muito menos o tanque que é já uma espécie extinta por aqui. Muitas pessoas possuem a máquina, mas não a secadora e já que quase nunca faz sol por aqui, é um item importante. Já achei estranho ver máquina de lavar no banheiro ou na cozinha dos lares europeus em geral. Mas estranho mesmo é lavar suas peças de roupas coletivamente.

Temos que usar aquelas lavanderias que você vê mais nos filmes e séries americanos do que britânicos. Você coloca o valor em moedas, aperta uns botões e pronto. Se você esquecer de levar sabão, há disponível por 40 centavos numa maquininha que parece vir dos anos 60. Aliás, todo esse processo parece ser do passado. Chamadas de “launderettes” ou “coin laundrys”, existem há uns bons anos e raramente são modernas – nem extremamente higiênicas. E seus frequentadores também. Quem chegar primeiro quando a launderette está vazia se dá muito bem. Pode escolher a máquina que quiser, aquela única mais recente, mais limpa, mais eficaz; e depois pode ficar ali esperando tranquilamente tudo secar, sem ninguém te intimidando para terminar logo porque também quer usar.

Nessas lavanderias, um brasileiro comum teria um leve ataque do coração. Há algum tipo de sujeira por toda a parte, cartazes mais velhos que nossas bisavós, as pessoas lavam tênis junto com roupas, deixam entrar o cachorro junto, derrubam a calcinha no chão e não se importam em lavar de novo, usam uma cesta de roupas coletiva com um volume maior de bactéria do que a sola do seu sapato, um cheiro de queimado ali, um medo da secadora explodir de vez em quando e claro, não podemos esquecer das teias de aranhas e poeira desde 1897 nas portas de entrada. E a educação dos que frequentam é mais suja do que suas meias.

As lavanderias nem sempre ficam próximas, é preciso andar às vezes uns quinze minutos no frio ou na chuva com todo aquele peso. Tudo por roupas limpinhas e cheirosas. Mas grande coisa, existem coisas piores, não é mesmo? Isso pode ser um privilégio aqui, no Brasil também e quando não é, não damos tanto valor. Basta jogar tudo lá dentro da máquina que magicamente aparece dobrado em cima da cama.

Pior do que não ter o luxo de poder lavar a roupa, é não poder lavar a alma. Conheci Khali* há uns dois anos em uma das lavanderias aqui perto. Algumas das launderettes fornecem o serviço de mágica, em que você leva seus pertences para lavar numa sacola ou numa mala de viagem, e quando vai buscar, está tudo dobrado. Khali trabalhava em uma assim, menos de quarta-feira quando o local não abria. Toda vez em que íamos buscar, em geral roupa de cama, toalhas de rosto, moletons, meias (se acha que alguém ia lavar minhas roupas íntimas?!), ficávamos quase ou mais de uma hora conversando com ela. Nada nunca muito sério, sempre davamos risada e Khali adorava tirar sarro de Steve, que trabalha lá também. Ele não falava muito, só entrava e saindo rindo, tirando sarro junto dele mesmo. Às vezes era tanta risada e tanto sotaque inglês misturado que eu não entendia nada.

Mas eu entendia que Khali tinha dor em suas risadas. Ela ria e constantemente estava de bom humor, parecia sempre alegre. Era como se ela soltasse bolhas de sabão, mas estivesse seca por dentro. Quando nossa amizade progrediu ao nível de adicionar um ao outro no Facebook, eu lia seus status cheios de dor. Raramente alguém comentava ou perguntava algo. Era um “espero que você esteja bem”. Mas obviamente ela não estava. E quando era um “espero que você melhore”, ela não melhorava. Nunca era um “o que aconteceu? Posso ajudar?”. Nem mesmo de mim, porque eu não sabia como ajudar, pelo menos não online, por isso chamava-a para um chá. Então, no fim era um “vamos combinar” que nunca era combinado.

Pelas fotos antigas de Khali, dava para ver que aquilo estampado no seu rosto era uma alegria verdadeira, sem camadas. Era feliz, pura e simplesmente. Descontraída, simpática, aproveitando sua vida nem exageros, sem pesos. As mais recentes eram bem poucas, Khali não gostava mais de fotos. Ela havia engordado bastante, seus cabelos esbranquiçaram, ficaram secos e agora sempre despenteados, seu rosto porém enxugou e toda aquela jovialidade e carisma também. Não gostava mais de se ver no espelho, enxergava o passado nitidamente, mas desviava o olhar do futuro. Sendo assim, não estava no presente e nenhum outro lugar.

Lembro-me vagamente que ela comentara que tinha sido noiva de alguém. Ali foi onde identifiquei a origem do seu sofrimento escondido. Seja o que for que aconteceu, esse homem fez com que Khali acreditasse que não era mais digna de ser amada ou capaz de amar. Ou os dois. As cicatrizes eram invisíveis, mas as lágrimas ainda ardiam. Seus ossos doíam de vez em quando e as enxaquecas viam com intensidade. Mas o que mais incomodava Khali eram as enchentes. As chuvas torrenciais acabam por inundar sua casa. Ela não aguentava mais e postava frequentemente atualizações em seu perfil.

As enchentes faziam com que Khali se sentisse sozinha, as águas levavam algumas coisas desimportantes e deixavam outras. Por mais que ela torcesse e enxugasse o passado, a dor ficava ali, desidratando-a.

Como é que ninguém percebe que Khali está morrendo afogada aos poucos? Será que ninguém pode fazer nada? Como ela poderia finalmente se desprender do pretérito imperfeito e respirar com alívio e liberdade? Seus amigos tinham pena, alguns já estavam cansado de ter pena. Khali sabia disso, ela não queria pena, ela queria apenas não se sentir tão sozinha numa multidão. Se não postasse nada, não falaria com ninguém por dias. Porém, estava cansada dessas migalhas de atenção falsa. Era melhor se esconder cada vez mais e gostar cada vez menos das coisas, dos amigos e de si mesma. Nunca deu certo amar, foi tão horrível, para que experimentar de novo? O ideal seria até mesmo guardar ou jogar fora essa ideia. Estava quebrada como uma das máquinas na lavanderia cuja a porta nem fechava. Queriam substituir por uma nova, mas o tempo passava e ficava ali de enfeite e enferrujada. Eu dizia que era possível consertar, mas talvez eu não fosse a pessoa que dariam ouvidos.

Ela dobrava as peças ainda quentes da secadora. Separava as fronhas brancas das coloridas, dobrava lençóis com elástico sem dificuldade e tinha uma delicadeza ao tocar roupinhas de bebês. Era Khali que dobrava as roupas de muitos e assim, magicamente, apareciam engomadinhas em cima da cama desses que pensam que ter uma máquina de lavar em casa é um privilégio. Mas privilégio é poder amar.

 

A vida secreta que as pessoas vivem

As pessoas vivem vidas tão secretas que parecem que já não existem mais

Em Londres, as pessoas andam apressadamente sem rumo e eu raramente sei o que elas estão pensando. Não há grande mistério sondando os motivos: simplesmente não  demonstram suas ideias e posam rostos sem faces.

Não é geral, mas é a experiência que vivo. E nessa realidade os moradores e funcionários  de prédios não cumprimentam ninguém ao entrar no elevador. Nada daquela conversa rala de como está o tempo, anda muito frio, que loucura. Entram e saem como se fossem todos invisíveis.

Quem é feliz não estampa de forma tão óbvia.  Têm sempre essa cara de nada, não contam nada, não perguntam nada. Parecem não se importar, vivem um nada constante. O desinteresse coletivo está manchado por vários tons.

Algumas pessoas falam sim, dão até um grande sorriso, tão ralo que não se vê mais nada. Abrem a boca mas não mexem os olhos. Movimentam palavras e não mexem nem mesmo as bochechas, parecem duras feitas de ferro. Têm um olhar fixo que não é frio nem quente.

Não sei de nada. Não me contam nada, vivem suas vidas misteriosas cautelosamente.  É  comum compartilhar uma mesma casa, mas não uma mesma vida e sintonia. Seus flatmates se trancam em seus quartos, assistem séries misteriosas, deitam em lençóis   misteriosos, sussuram segredos no telefone. Eles também se trancam na cozinha e preparam receitas secretíssimas, tão secretas que não possuem cheiro ou gosto. Vivem no mesmo endereço, mas não no mesmo lar. Ninguém sabe muito de ninguém ou nem mesmo quer saber. Sabem o nome, talvez a profissão, se são bem sucedidos ou não, se tem dinheiro ou não. Jamais vão saber mais do que isso, como a cor preferida um do outro ou muito menos as cores da alma. Mas quem quer saber essas coisas de um estranho?

Ninguém quer saber de nada, principalmente de problemas dos outros, mas especialmente de felicidades e conquistas. Afinal, elas estariam perdendo nessa competição rígida e invisível. É melhor não saber. E como se elas não existissem.

Voce não quer saber porque não faz diferença no seu dia. Vivam sua vida e pronto, tolos. 

Só eu quero saber. Quem são essas pessoas trancadas em jaulas? Quem são essas pessoas do outro lado do muro? Se não sei se essas pessoas estão sentindo algo, como saberei que estão vivas realmente? Como saberei se eu estou viva? Estaria vivendo numa realidade em que todos estão meio mortos?

Em São Paulo, muitos vivem uma pseudo-vida. Há miséria em nossas almas, mas há alguma coisa em nossos corações. Alguns batem falsamente, mas há dor mesmo assim. Há esperança, há amor, há raiva. Nem sempre tão nítido, mas eu sei que tem algo ali, algo verdadeiramente vivo, consigo ver com meus próprios olhos. Com paciência é possivel enxergar a vida.

Mas aqui eu sou cega. Apenas vejo vidas secretas.

Tão secretas que parecem que não existem. Parecem apenas corpos sem sangue e emoção, caminhando, sentando, deitando, trabalhando sem saber por que. Em algum lugar, jogaram e cavaram tão fundo tudoo que tinham que não é mais possível ver a solidão. Nem eles mesmos sabem seus próprios segredos mais. Esconderam tão bem a dor que agora não sentem mais nada.

Quero saber e olho sempre disfarçadamente, como se eu não estivesse ali. Há rancor nos olhos que desviam. Há vontade de amar nos braços cruzados. Há vontade de conhecer nos lábios fechados, quase costurados pelo tempo. Há vida querendo viver debaixo de tanta poeira. Atrás de tantas camadas de segredos, estão desesperados para que alguém descubra que o seu segredo é que ainda estão vivos.

 

 

 

 

Londres: Onde encontrar incríveis apresentações de teatro, balé e concertos

Onde encontrar lindos palcos com incríveis apresentações de teatro e balé

Royal Opera House http://www.roh.org.uk
Admiradores de balé podem comprar ingressos para assistir a grandes musicais, além de poder fazer um tour no backstage e ver algumas aulas do Royal Ballet. Os preços da programação são meio salgados, mas o prédio da Royal Opera House já vale a visita. Programa-se! Com bastante antecedência, você consegue adquirir ingressos promocionais a partir de £10!

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National Theatre http://www.nationaltheatre.org.uk
O Teatro Nacional de Londres fica às margens do rio Thames. Lá você pode curtir de peças de teatro estrelado por atores famosos e ‘pré-apresentações’ de concertos musicais. Confira o site para mais informações de programações de peças, musicais e exibições. Algumas são gratuitas, mas outras são pagas ($$).

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Shakepeare’s Globe Theatre www.shakespeare-globe.org
Fãs e admiradores do dramaturgo Shakespeare têm como parada obrigatória o ‘The Globe’ – Shakespeare’s Globe Theatre. O lugar é uma recriação dos teatros da época nos quais eram encenadas suas obras. Confira no site a programação das peças que lá acontecem durante todo o ano!

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Barbican http://www.barbican.org.uk
O centro cultural Barbican hospeda diversas apresentações artísticas da cidade. Ingressos para teatro, cinema, dança e eventos musicais como a Orquestra Sinfônica de Londres (London Symphony Orchestra) podem ser adquiridos pelo site. Reserve o seu com antecedência! Estação mais próxima: Moorgate ou Farringdon.

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