A obrigação de ser feliz

Seja feliz se você quiser

Quando entrevistei a psicoterapeuta Ana Gabriela Adriani para uma reportagem em vídeo, ela disse que um dos motivos que as pessoas ficam estressadas e até deprimidas é a exigência de nossa sociedade em sermos produtivos, saudáveis e felizes. O tempo e o espaço de uma cidade como São Paulo por exemplo, possuem também uma diferente percepção. Parece que temos menos tempo e mais distância a percorrer. O dia a dia é lotado de coisas para fazer, além de constantes sentimentos de frustração e ansiedade.

Temos que ser bem sucedidos na carreira. Temos que ter relacionamentos familiares e amorosos sem defeitos. Temos que ter um corpo que se enquadre nos padrões de beleza. E mesmo que nada na vida consiga manter o equilíbrio perfeito, temos que manter o sorriso no rosto. Nas vitrines sociais, temos a obrigação de ser feliz. É uma vida de aparências e não de experiências.

ReproduçãoCara, ninguém é um robô construído para uma determinada função. Felicidade não é um produto a ser vendido ou comprado, muito menos uma obrigação. Felicidade é uma busca, uma conquista, um caminho a ser percorrido. E tudo bem ser infeliz, frustrado, angustiado, deprimido, triste, chateado com as coisas da vida e com você mesmo. São as mais puras emoções humanas. É NORMAL. Essa felicidade constante que compartilham e fazem questão de mostrar e provar toda hora, é uma felicidade plastificada, falsa e efêmera. Um sorriso pirata que passou por uma linha de produção até chegar à versão mais que perfeita e maravilhosa não dura na alma.

Me dá um abraço, eu sei que não está tudo bem. É impossível TUDO estar bem. Mas essa é a graça da nossa existência. Porque quando algo está incomodando, não está certo, ainda não chegou ao ponto que queremos, continuamos nossa luta na batalha. Isso nos torna mais vivos. Além disso, conhecer o “lado negro”, saber o que é infelicidade e solidão, nos permite saber o que é felicidade de verdade. Naquele momento, você se sente pleno, completo e livre.

Para saber o que é felicidade mesmo, muitas vezes vamos provar de gostos amargos e ácidos até encontrar um sabor que combina com a gente. Até lá, não TEMOS QUE fazer porcaria nenhuma, apenas viver. Viver é saber desfrutar os momentos, sejam eles quais forem: ruins, bons, ciladas, piadas, romances, tombos, pulos.

Também não precisamos nos pressionar e exigir tanto de nós mesmos. Afinal, será que é isso que eu quero? Bem lá no fundo? Sei lá. Não tem problema ter todas as certezas da vida. É bom se perder em si mesmo de vez em quando, parar e perguntar os mistérios do universo para nossa alma e também encontrar, desencontrar ou reencontrar novos sonhos.

O que TEMOS que ser é: nós mesmos.

ReproduçãoSe você não for autêntico com os outros e sincero consigo mesmo, não vai encontrar nada de verdadeiro na vida. Nem alegria, nem amor, nem dinheiro.

Se você fica encarando a felicidade dos outros e pensa “Ai, só eu estou na merda!”, engana-se. Todo mundo tem problemas. Alguns simplesmente ignoram e editam a vida no photoshop. Felicidade não precisa de efeito nem confeito. A felicidade está nas coisas mais simples, já dizia a vovó.

Hoje em dia, a maioria das tecnologias (TV, câmeras, celulares, etc) são touchscreen. O mundo em apenas um toque. Só que os seres humanos estão tocando em máquinas e deixando de tocar em pessoas. E sendo assim, a falta de calor humano – não só abraço e beijos, mas o simples ato de tocar – deixa as relações artificiais. A primeira ligação emocional de uma criança é construída a partir do contato físico com os pais, mas estamos perdendo o elo com nossas emoções humanos pela falta de tato. (Aliás, uma pesquisadora americana chamada Tiffany Field diz que se as pessoas se tocassem mais, a criminalidade diminuiria.) E ainda, cada vez mais o conteúdo de uma conversa básica fica absurdamente na superfície – além de não mergulharmos em nós mesmos, não mergulhamos em relacionamentos – seja com um amigo, namorado ou a própria família.

É o eterno Oi tudo bem, tudo e você – tudo ótimo. Ou o vamos combinar, claro vamos combinar. E nunca combinam nada porque há uma necessidade em… nada. Precisamos de diálogos e contatos vazios para tentar preencher o oco de nossas almas desesperadas, caladas e negligenciadas.

E aí as pessoas acabam não tendo mais amizades significativas nem intimidade (não estou falando de nada sexual aqui, ok?).

Como vamos ser felizes assim? E que pessoa feliz consegue ser bem sucedida na carreira e em todos os aspectos da vida? Estamos enclausurados em nós mesmos. E se continuarmos assim, morreremos sufocados. E também não dá para ser feliz sozinho. A felicidade só é real quando compartilhada.

Vejo vultos transtornados juntando migalhas de felicidade. Um tiquinho ali, mais um pouquinho ali, abrindo um pouco mais o sorriso, isso, aí, tá perfeito. Agora tira uma foto.

Lembro quando fotografias realmente deixavam que um momento se tornasse imortal. Agora todos os momentos são completamente banais. Além de forçados. E é exatamente essa obrigação invisível e persistente e burra de sermos felizes que nos faz completamente infelizes.

A felicidade precisa ser livre. Sem exigências, sem regras, sem mimimi e nhe nhe nhe.

Seja feliz se quiser

Embalos

É… acho que a idade chegou pra mim. O sono e a meia-noite se aproximam, e quando o sol aumenta a distância entre eles.  Agora me levanto junto a luz dourada. É… e hoje eu vou trabalhar enquanto eles, os noturnos, vão se deitar e ter sonhos descansados.

Não me queixo, não. Efemeridade dos momentos, da música, do dinheiro, da maquiagem. Tudo acaba. E acabou. É… acho que acabou pra mim.

Naquela multidão dançante, sorridente demais, me sinto perdida. Estou sempre à procura do que jamais vou encontrar, onde quer que eu vá.  É tudo tão falso. E eu… eu acreditei um dia. Mas como podemos ser felizes assim? É essa a felicidade? Oh, não. Eu sei que não. Sei porque eu vivi essa felicidade, provei do seu gosto e vi que era veneno.

A minha solidão é uma benção venenosa. Onde estou, estou só, ou pior… estou comigo. E se estou comigo, não estou sozinha, meus pensamentos me perseguem. E o que penso, sinto, o que sinto, penso.

É vida mesmo… isso ou aquilo? Explorar a noite e superestimá-la? Ou esnobá-la e ficar sã no meu próprio embalo? Socializar-me para ser parte de um mundo ou criar o meu universo particular?

Mas o que é vida, meu Deus? Tantos dizem que devo aproveitá-la fazendo isso ou aquilo. Apreciar a companhia de outros, e apreciar o meu eu por si só. Dá para ser solitária e requisitada ao mesmo tempo? Como faço? O que faço?

Contam tanto que a vida é agora, que este momento não volta, que o presente deve ser vivido intensamente, o trem corre desesperadamente apara chegar a na hora. E aconselham que sou jovem, que a vida é longa, há muito tempo ainda, experiências e dádivas que a espreita, o relógio espera, o destino guarda e me aguarda. Que dilemas absurdos! Querem me enlouquecer…

Não me queixo, não.

Apenas me preocupo com a aprovação e a opinião de uma única pessoa. Aquela que serei no entardercer da vida, tão próxima da morte que posso ouvir sua voz suave. O que ela vai pensar de mim? Vai gostar? Vai me dizer em relação ao que fiz, como fiz com a vida inteira dela “Parabéns!” ou “Que merda!”? Saberei então se fiz certo, se fiz errado ou se fiz bem, se vivi?

É… acho que tenho que viver pra mim. Um embalo dividido e armazenado aos poucos, e bastantes deles.