O luxo de ter uma máquina de lavar roupas em Londres

Máquina de lavar roupas é praticamente um luxo em Londres. Há falta de espaço ou de dinheiro ou talvez de encanamento para a instalação. Não tem um espaço nas casas ou nos apartamentos para uma lavanderia, muito menos o tanque que é já uma espécie extinta por aqui. Muitas pessoas possuem a máquina, mas não a secadora e já que quase nunca faz sol por aqui, é um item importante. Já achei estranho ver máquina de lavar no banheiro ou na cozinha dos lares europeus em geral. Mas estranho mesmo é lavar suas peças de roupas coletivamente.

Temos que usar aquelas lavanderias que você vê mais nos filmes e séries americanos do que britânicos. Você coloca o valor em moedas, aperta uns botões e pronto. Se você esquecer de levar sabão, há disponível por 40 centavos numa maquininha que parece vir dos anos 60. Aliás, todo esse processo parece ser do passado. Chamadas de “launderettes” ou “coin laundrys”, existem há uns bons anos e raramente são modernas – nem extremamente higiênicas. E seus frequentadores também. Quem chegar primeiro quando a launderette está vazia se dá muito bem. Pode escolher a máquina que quiser, aquela única mais recente, mais limpa, mais eficaz; e depois pode ficar ali esperando tranquilamente tudo secar, sem ninguém te intimidando para terminar logo porque também quer usar.

Nessas lavanderias, um brasileiro comum teria um leve ataque do coração. Há algum tipo de sujeira por toda a parte, cartazes mais velhos que nossas bisavós, as pessoas lavam tênis junto com roupas, deixam entrar o cachorro junto, derrubam a calcinha no chão e não se importam em lavar de novo, usam uma cesta de roupas coletiva com um volume maior de bactéria do que a sola do seu sapato, um cheiro de queimado ali, um medo da secadora explodir de vez em quando e claro, não podemos esquecer das teias de aranhas e poeira desde 1897 nas portas de entrada. E a educação dos que frequentam é mais suja do que suas meias.

As lavanderias nem sempre ficam próximas, é preciso andar às vezes uns quinze minutos no frio ou na chuva com todo aquele peso. Tudo por roupas limpinhas e cheirosas. Mas grande coisa, existem coisas piores, não é mesmo? Isso pode ser um privilégio aqui, no Brasil também e quando não é, não damos tanto valor. Basta jogar tudo lá dentro da máquina que magicamente aparece dobrado em cima da cama.

Pior do que não ter o luxo de poder lavar a roupa, é não poder lavar a alma. Conheci Khali* há uns dois anos em uma das lavanderias aqui perto. Algumas das launderettes fornecem o serviço de mágica, em que você leva seus pertences para lavar numa sacola ou numa mala de viagem, e quando vai buscar, está tudo dobrado. Khali trabalhava em uma assim, menos de quarta-feira quando o local não abria. Toda vez em que íamos buscar, em geral roupa de cama, toalhas de rosto, moletons, meias (se acha que alguém ia lavar minhas roupas íntimas?!), ficávamos quase ou mais de uma hora conversando com ela. Nada nunca muito sério, sempre davamos risada e Khali adorava tirar sarro de Steve, que trabalha lá também. Ele não falava muito, só entrava e saindo rindo, tirando sarro junto dele mesmo. Às vezes era tanta risada e tanto sotaque inglês misturado que eu não entendia nada.

Mas eu entendia que Khali tinha dor em suas risadas. Ela ria e constantemente estava de bom humor, parecia sempre alegre. Era como se ela soltasse bolhas de sabão, mas estivesse seca por dentro. Quando nossa amizade progrediu ao nível de adicionar um ao outro no Facebook, eu lia seus status cheios de dor. Raramente alguém comentava ou perguntava algo. Era um “espero que você esteja bem”. Mas obviamente ela não estava. E quando era um “espero que você melhore”, ela não melhorava. Nunca era um “o que aconteceu? Posso ajudar?”. Nem mesmo de mim, porque eu não sabia como ajudar, pelo menos não online, por isso chamava-a para um chá. Então, no fim era um “vamos combinar” que nunca era combinado.

Pelas fotos antigas de Khali, dava para ver que aquilo estampado no seu rosto era uma alegria verdadeira, sem camadas. Era feliz, pura e simplesmente. Descontraída, simpática, aproveitando sua vida nem exageros, sem pesos. As mais recentes eram bem poucas, Khali não gostava mais de fotos. Ela havia engordado bastante, seus cabelos esbranquiçaram, ficaram secos e agora sempre despenteados, seu rosto porém enxugou e toda aquela jovialidade e carisma também. Não gostava mais de se ver no espelho, enxergava o passado nitidamente, mas desviava o olhar do futuro. Sendo assim, não estava no presente e nenhum outro lugar.

Lembro-me vagamente que ela comentara que tinha sido noiva de alguém. Ali foi onde identifiquei a origem do seu sofrimento escondido. Seja o que for que aconteceu, esse homem fez com que Khali acreditasse que não era mais digna de ser amada ou capaz de amar. Ou os dois. As cicatrizes eram invisíveis, mas as lágrimas ainda ardiam. Seus ossos doíam de vez em quando e as enxaquecas viam com intensidade. Mas o que mais incomodava Khali eram as enchentes. As chuvas torrenciais acabam por inundar sua casa. Ela não aguentava mais e postava frequentemente atualizações em seu perfil.

As enchentes faziam com que Khali se sentisse sozinha, as águas levavam algumas coisas desimportantes e deixavam outras. Por mais que ela torcesse e enxugasse o passado, a dor ficava ali, desidratando-a.

Como é que ninguém percebe que Khali está morrendo afogada aos poucos? Será que ninguém pode fazer nada? Como ela poderia finalmente se desprender do pretérito imperfeito e respirar com alívio e liberdade? Seus amigos tinham pena, alguns já estavam cansado de ter pena. Khali sabia disso, ela não queria pena, ela queria apenas não se sentir tão sozinha numa multidão. Se não postasse nada, não falaria com ninguém por dias. Porém, estava cansada dessas migalhas de atenção falsa. Era melhor se esconder cada vez mais e gostar cada vez menos das coisas, dos amigos e de si mesma. Nunca deu certo amar, foi tão horrível, para que experimentar de novo? O ideal seria até mesmo guardar ou jogar fora essa ideia. Estava quebrada como uma das máquinas na lavanderia cuja a porta nem fechava. Queriam substituir por uma nova, mas o tempo passava e ficava ali de enfeite e enferrujada. Eu dizia que era possível consertar, mas talvez eu não fosse a pessoa que dariam ouvidos.

Ela dobrava as peças ainda quentes da secadora. Separava as fronhas brancas das coloridas, dobrava lençóis com elástico sem dificuldade e tinha uma delicadeza ao tocar roupinhas de bebês. Era Khali que dobrava as roupas de muitos e assim, magicamente, apareciam engomadinhas em cima da cama desses que pensam que ter uma máquina de lavar em casa é um privilégio. Mas privilégio é poder amar.

 

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