A vida secreta que as pessoas vivem

Em Londres, as pessoas andam apressadamente sem rumo e eu raramente sei o que elas estão pensando. Não há grande mistério sondando os motivos: simplesmente não  demonstram suas ideias e posam rostos sem faces.

Não é geral, mas é a experiência que vivo. E nessa realidade os moradores e funcionários  de prédios não cumprimentam ninguém ao entrar no elevador. Nada daquela conversa rala de como está o tempo, anda muito frio, que loucura. Entram e saem como se fossem todos invisíveis.

Quem é feliz não estampa de forma tão óbvia.  Têm sempre essa cara de nada, não contam nada, não perguntam nada. Parecem não se importar, vivem um nada constante. O desinteresse coletivo está manchado por vários tons.

Algumas pessoas falam sim, dão até um grande sorriso, tão ralo que não se vê mais nada. Abrem a boca mas não mexem os olhos. Movimentam palavras e não mexem nem mesmo as bochechas, parecem duras feitas de ferro. Têm um olhar fixo que não é frio nem quente.

Não sei de nada. Não me contam nada, vivem suas vidas misteriosas cautelosamente.  É  comum compartilhar uma mesma casa, mas não uma mesma vida e sintonia. Seus flatmates se trancam em seus quartos, assistem séries misteriosas, deitam em lençóis   misteriosos, sussuram segredos no telefone. Eles também se trancam na cozinha e preparam receitas secretíssimas, tão secretas que não possuem cheiro ou gosto. Vivem no mesmo endereço, mas não no mesmo lar. Ninguém sabe muito de ninguém ou nem mesmo quer saber. Sabem o nome, talvez a profissão, se são bem sucedidos ou não, se tem dinheiro ou não. Jamais vão saber mais do que isso, como a cor preferida um do outro ou muito menos as cores da alma. Mas quem quer saber essas coisas de um estranho?

Ninguém quer saber de nada, principalmente de problemas dos outros, mas especialmente de felicidades e conquistas. Afinal, elas estariam perdendo nessa competição rígida e invisível. É melhor não saber. E como se elas não existissem.

Voce não quer saber porque não faz diferença no seu dia. Vivam sua vida e pronto, tolos. 

Só eu quero saber. Quem são essas pessoas trancadas em jaulas? Quem são essas pessoas do outro lado do muro? Se não sei se essas pessoas estão sentindo algo, como saberei que estão vivas realmente? Como saberei se eu estou viva? Estaria vivendo numa realidade em que todos estão meio mortos?

Em São Paulo, muitos vivem uma pseudo-vida. Há miséria em nossas almas, mas há alguma coisa em nossos corações. Alguns batem falsamente, mas há dor mesmo assim. Há esperança, há amor, há raiva. Nem sempre tão nítido, mas eu sei que tem algo ali, algo verdadeiramente vivo, consigo ver com meus próprios olhos. Com paciência é possivel enxergar a vida.

Mas aqui eu sou cega. Apenas vejo vidas secretas.

Tão secretas que parecem que não existem. Parecem apenas corpos sem sangue e emoção, caminhando, sentando, deitando, trabalhando sem saber por que. Em algum lugar, jogaram e cavaram tão fundo tudoo que tinham que não é mais possível ver a solidão. Nem eles mesmos sabem seus próprios segredos mais. Esconderam tão bem a dor que agora não sentem mais nada.

Quero saber e olho sempre disfarçadamente, como se eu não estivesse ali. Há rancor nos olhos que desviam. Há vontade de amar nos braços cruzados. Há vontade de conhecer nos lábios fechados, quase costurados pelo tempo. Há vida querendo viver debaixo de tanta poeira. Atrás de tantas camadas de segredos, estão desesperados para que alguém descubra que o seu segredo é que ainda estão vivos.

 

 

 

 

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