Os 13 porquês do terrorismo invisível

Ataques terroristas não acontecem só na Inglaterra, na França, na Alemanha, Estados Unidos. Mas se for em outro país ninguém liga, ninguém se importa, ninguém quer se informar, ninguém sabe, ninguém escuta. A morte está ali do mesmo jeito, espalhada, amputada, sangrenta, histérica. Rios de sangue e lágrimas pela perda de 28 vidas, mas ninguém reza pelo Egito, ninguém é Egito. Ninguém é Síria, nem Turquia. Mas somos todos Paris.

Por que o ocidente não acha tão desumano e triste o que acontece no oriente? É culpa da mídia? Ah, sem dúvida. Mas não apenas isso. Após uma pesquisa e análise (e minha opinião), eis os 13 porquês:

1.  O principal é que nós não nos identificamos muito com o estilo de vida e cultura do oriente, portanto, não vemos os como “semelhantes”. É por isso que o ocidente sente mais medo, tristeza e raiva quando um bombardeio atinge uma área “mais parecida” como a nossa (Europa e Américas).

2. Além disso, cidades européias possuem um grande “afeto” pelas pessoas. Muitos querem visitar Barcelona, Berlim, Bruxelas, e claro, Paris, que é uma das cidades mais conhecidas do planeta.  “Quando você sabe algo que você desenvolver uma ligação mais profunda para ele. Quando você sente um laço, você reage muito mais forte”, diz Balaji Viswanathan. Quando você nem sabe onde Beirut ou Ankara fica, não cria empatia.

3. Um ataque a Paris é uma ameaça para todas as nações ocidentais. Se aconteceu em Paris, pode acontecer em outros lugares, “mais perto de casa”. E é por isso que as pessoas prestam atenção, argumenta Emmanuel Bassil.

4. Muitos dos países atacados são considerados relativamente seguros, enquanto se tem a imagem que de países como o Líbano por exemplo, são perigosos. Ou seja, já se espera (talvez erroneamente) que isso aconteça lá. Mas é um grande choque se acontece em Manchester. “Meu Deus, o mundo não está seguro em lugar algum, menina!”. A verdade é que o Oriente Médio é uma zona de conflito, várias organizações terroristas baseiam-se nessa região. A maioria das vítimas do terrorismo são muçulmanas e não-ocidentais.  Uma estimativa conservadora do Centro de Combate ao Terrorismo da Academia Militar de Nova York em West Point concluiu que entre 2006 e 2008, os não-ocidentais representavam cerca de 98% das vítimas da Al Qaeda. A maioria dessas vítimas eram muçulmanas.

Reprodução
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5.
Uma outra razão é o “Nossa, eu poderia estar lá.” Afinal, são cidades visitadas por turistas. Mas ninguém faz turismo hoje em dia na Síria, Nigéria, Quênia, porque são lugares já programados no cérebro das pessoas como “de risco”.

6. É por esses motivos também que há uma grande dessensibilização. “Se algo acontece todos os dias, começamos a ficar menos sensíveis à situação”, pontua Arya Yuyutsu. “Em muitas dessas áreas, vidas são perdidas todos os dias. Se fosse apenas uma vez, as pessoas ficariam chocadas. As pessoas iriam atribuir Paris como um lugar muito inseguro”.

7. Claro, não podemos nos esquecer que apesar do porquê número 1, existe o complexo de superioridade do Oeste. As vidas desse lado valem mais do que o outro.

O eurocentrismo é um termo cunhado nos anos 80, referindo-se à noção de excepcionalismo europeu, uma visão de mundo centrada na civilização ocidental, como se desenvolveu durante o auge dos impérios coloniais europeus desde o período da Primeira Modernidade. O eurocentrismo é a prática de ver o mundo numa perspectiva europeia e com uma crença implícita, consciente ou subconsciente, na preeminência da cultura europeia. O termo eurocentrismo em si remonta ao final da década de 1980 e tornou-se predominante no discurso durante a década de 1990, por exemplo, no contexto da descolonização.


8.
Falta de informação. Mesmo se a mídia quisesse falar mais sobre os ataques em outros países, não é tão seguro ou fácil mandar um repórter no meio de uma guerra. E também porque não tem tanto “valor de notícia”, pelos motivos anteriores, inclusive o número 4. Atentados terroristas contra o Ocidente, e contra os não-muçulmanos em particular, são manchetes sensacionalistas e dão mais audiência. Enquanto isso, atentados que afligem “os não-ocidentais” e os muçulmanos são normalizados, tratados como algo de costume.

9. Há uma grande islamofobia. Por falta de informação e grande generalização, boa parte da sociedade acredita que todos os muçulmanos são terroristas, o que não é verdade. Logo, o pensamento desumano é que eles merecem bombas sob a cabeça. Há extremistas em todo lugar, independente da crença.

10. Mais uma razão relacionada ao preconceito, é que muitas vezes as pessoas se chocam porque parte desses ataques no Ocidente acontecem contra “pessoas privilegiadas”, acredita Shava Nerad. Assim como no Brasil, nós também não nos importamos tanto ou nada com a miséria e a violência que acontece na periferia. Nossa preocupação é elitizada, e muito bem selecionada. Negros e pobres, moradores de rua ou da Cracolândia não merecerem pena ou consolo porque não “vermes” da sociedade – quem pensa assim, é muito mais desumano do que as vítimas de violência.

11. Ainda, há uma grande hipocrisia acima de tudo. No Brasil, ninguém liga para os mortos pobres da favela, mas mudam a foto do perfil do Facebook “somos todos Paris”. O ex presidente da Nigéria exemplifica bem isso.

O presidente Goodluck Jonathan foi rápido ao condenar o “monstruoso” ataque terrorista contra Charlie Hebdo em Paris. Mas ao The Economist, ele não tinha pronunciado uma palavra sobre o Boko Haram, que matou dezenas de pessoas na aldeia de Baga.

12. Como Garikai Chengu, pesquisador da Harvard University coloca “Em 1997, um relatório do Departamento de Defesa dos Estados Unidos afirmou que “os dados mostram uma forte correlação entre o envolvimento dos EUA no exterior e um aumento de ataques terroristas contra os EUA”. A verdade é que a única maneira de os Estados Unidos ganharem a “Guerra ao Terror” é parar de dar aos terroristas a motivação e os recursos para atacar a América. O terrorismo é o sintoma; o imperialismo americano no Oriente Médio é o câncer. Simplificando, a Guerra contra o Terror é terrorismo; Só, é conduzido em uma escala muito maior por pessoas com jatos e mísseis“.  Ainda, os atentados terroristas chamam mais atenção pela teoria da conspiração. Muitos acreditam que países como França, Estados Unidos e Inglaterra “se atacam”, dizendo que são os terroristas “de lá” apenas para ter um motivo e matar sua sede de guerra e poder no Oriente Médio.

13. As pessoas estão ficando cada vez mais idiotas e nada solidárias.

 

 

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