Por que muitos se cansam de Londres, se cansam da vida

“Quando um homem se cansa de Londres, ele está cansado da vida; porque há em Londres tudo que a vida pode trazer.”
Samuel Johnson em The life of Samuel Johnson (1791).

Londres é uma cidade incrível, sempre agitada e com milhares de coisas legais para fazer. É uma cidade mente aberta, diplomática, estilosa. Você pode viver aqui por mais de dez anos ou toda sua vida, mas ainda vai encontrar algo novo, algo que te encanta, algo inusitado. Raramente você vai ficar entediado – sempre tem um restaurante e novos sabores para experimentar, uma peça de teatro imperdível, um festival de pizza ou de sorvete, um parque que ainda não conhece ou uma obra de arte que ainda não viu.

Mas claro, às vezes sentimos que falta alguma coisa, mesmo numa cidade plena como Londres. Pode ser o céu desbotado que apaga a chama dentro de nós. Ou talvez a multidão de faces sem traços e sem cores. Dizem que Londres é cheia de vida, mas a vida aqui (ou em qualquer outro lugar) pode ter um gosto amargo ou envelhecido. As metrópoles que nunca param, nunca dormem e nunca voltam a sonhar continuam em linha reta sem saber como chegaram até lá, nem saber para onde vão, para onde voltam e por que caminham todos os dias pela mesma rua.

Quem se cansa de Londres, se cansa da vida. Em 1791, talvez a vida tinha mais gosto, mais mistério, mais brilho. Hoje, Londres e as grandes cidades modernas nos chamam hipnoticamente, dizendo que vão ajudar-nos a construir nossos sonhos, mas acabam destruindo-os rapidamente.

Quando desembarcarmos em Londres, cheios de planos, sorriso com todos os dentes, nada vai nos parar, estamos prontos para todos os obstáculos. Só esquecemos que o único grande obstáculo é nós mesmos. A vida vai sugando os sonhos, e não temos onde recarregá-los. Com o tempo, eles desaparecem e esquecemos completamente o que sonhávamos e desejávamos ser. A criança dentro de nós some, e nos tornamos adultos – seres que servem apenas para pagar limpar a casa, pagar contas, trabalhar numa gaiola nos mesmos dias e no mesmo horário.

A vida – não só em Londres, mas em todos os cantos – está exausta. Ela se arrasta e esconde os pequenos pedaços que sobraram, desesperada tenta escapar em minúsculos sorrisos do dia a dia e nas esperanças podres, prestes a dar o último suspiro.

Colocamos a vida para dormir e assim recuperar o sono perdido. Nossos olhos se abrem todas as manhãs, nossa boca engole a dor, nossos corpos se movimetam como vultos. Estamos vivos, o coração bate tímido, devagar ou acelerado, mas coberto de poeira.

A vida está cansada demais para acordar. Mas por quê? Porque a água está sempre morna, porque o muro é muito longe. Está tudo sempre arrumado e decorado para visitas, a desordem interior debaixo do tapete. A vida esgotada com pernas doloridas sem saber para onde ir porque temos medo de tudo. Estamos muito, mas muito ocupados para viver e mais preocupados em pintar uma obra de arte por fora, viver para os outros verem o sorriso de Monalisa, comprar coisas que não precisamos porque os outros precisam ver. E nessa longa jornada, constantemente focamos em nos encaixar perfeitamente em relacionamentos apertados e sufocantes. Somos desnecessários aos outros que nos usam e que nos neglicenciam, mas a dor de vez em quando nos faz lembrar que (ainda) não estamos mortos.

Na cidade, estamos rodeados de fumaça, ratos, doença, ódio – nenhum combustível compatível para nos reinventarmos. Não podemos nem ousar ou arriscar, pois estamos acorrentados à rotina que pensamos ser tão segura, mas que nos mata lentamente.

Quem se cansou da vida, cansou de ser o que não é, cansou de procurar e não achar, cansou de ser apenas uma exibição, cansou de sonhos emendados e adaptados, cansou de uma existência que não é palpável, de uma sobrevivência que não é possível.  A fatiga interminável da vida é porque nunca se viveu.

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