Afinal, minha vida vai mudar com o Brexit?

Desde que o Reino Unido decidiu fazer um referendo e perguntar aos seus cidadãos se queriam permanecer na União Europeia ou não, muita gente veio me perguntar preocupada como isso afetaria à mim e aos milhões de cidadãos europeus vivendo em territórios britânicos. Ainda uma nuvem de incertezas, boatos e especulações cobrem o Reino Unido.  A primeira-ministra Theresa May ativou o artigo 50 do Tratado de Lisboa, que dá início aos dois anos de negociações para acertar o processo de ruptura, ou como eles chamam por aqui, o divórcio com a Europa. Até agora, ninguém sabe ao certo as consequências do Brexit.

A União Europeia é composta de 28 países membros e há um acordo de livre circulação, mercado comum e inclusive uma mesma moeda (o Euro). Apesar do Reino Unido fazer parte – e fará por mais alguns anos – a moeda é a libra. Cidadãos de países membros da UE têm o direito de trabalhar e morar sem visto. Aliás, a UE quer crescer ainda mais. Existem cinco países candidatos oficiais: Turquia, Macedónia, Montenegro, Sérvia e Albânia. Para entrar, cada um tem de adoptar todas as regras da UE e normas políticas. Apesar da Comissão afirmar que não há perspectivas de novos membros antes de 2020, os que defenderam o Brexit, respiram aliviados agora, pois não queriam a possível entrada da Turquia na UE – e por sua vez, imigrantes trabalhando e morando no Reino Unido. Muitos políticos europeus acreditam que a Turquia nunca se qualificará, embora ambos os lados digam que estão comprometidos com sua entrada.

Afinal, por que os britânicos são a favor da saída do Reino Unido da UE? 

O resultado do referendo feita em junho de 2016 surpreendeu e também causou raiva. No mesmo dia, o termo mais pesquisado no Google foi “O que é a União Europeia?”. Assim como no Brasil, muita gente nem sabia o que estava fazendo. Uma significante porcentagem da população acreditava que com o Brexit, os muçulmanos deixariam o Reino Unido (para você ver como entendem mesmo de União Europeia). Além da intensa campanha anti-imigração liderada por Nigel Farage, um dos motivos que influenciaram o resultado foi o pagamento de milhões de libras para UE. Ao ano, a “taxa de adesão” custa £12.9 bilhões, em torno de um décimo do orçamento para o NHS (sistema público de saúde) e por volta de £200 a cada habitante do Reino Unido. São 35 milhões de libras por dia enviadas à UE e muitos britânicos acreditam que esse valor seria muito melhor investido em:

  • treinamento para ter mais 184,285 enfermeiras
  • treinamento para 161,250 policiais
  • treinamento para ter 25,800 mais médicos

Ainda, há algumas exigências da UE que enfurecem os britânicos, tais como:

  • De acordo com um regulamento da UE que entrou em vigor em 2014, os aspiradores de pó e outros eletrodomésticos que possuem motores mais potentes (1.600 watts e acima) são proibidos. A Comissão Européia disse que a proibição economizará energia e incentivará dispositivos mais eficientes. Porém, muitos acreditam que essa regra apenas foi criada para favorecer os aspiradores alemães.
  • A UE quer “harmonizar” impostos sobre produtos e deve ser pelo menos 15%. Por isso, deve aprovar impostos menores (5%) para determinados produtos, isto é, o Reino tem que pedir permissão europeia para reduzir o imposto sobre absorventes. Fora da UE, o RU pode cortar impostos também para as contas de gás e luz – por lado pode ser um progresso para quem possui dificuldades financeiras, mas pode também influenciar as pessoas a gastarem mais e serem menos ecologicamente corretas.
Reprodução
Theresa May/Reprodução

Theresa May provavelmente não conseguirá conquistar boa parte do que a campanha pró-Brexit prometeu, o que enfurecerá os conservadores e protestantes anti-imigrantes. A dúvida e o receio que ainda prevalecem é se os imigrantes europeus terão seus direitos mantidos. Por enquanto, sim. As autoridades não vão simplesmente começar a expulsar os quase 3 milhões de cidadãos da UE. E nem a União Europeia vão mandar os 1.2mi de britânicos voltarem para cá. Pelo menos não nos próximos dois anos. A  livre circulação de mão-de-obra é uma regra estimada da UE, que se aplica mesmo à Suíça e à Noruega, que não são membros da UE, mas têm acordos de livre comércio. De qualquer forma, engana-se quem pensa que deixando a UE,  isso significará zero imigração para o Reino Unido.

Reprodução/ The Guardian

Por fim, o grande risco do Brexit não é a possível crise econômica e a regulamentação na entrada de imigrantes. Livrar-se de taxas de adesão e leis bizarras da UE também não fará com que a Grã-Bretanha se torne livre de problemas.  Há muito a ser feito – e cuidadosamente. A Europa entra num caminho coberto por névoa. Afinal, a União, criada após a Segunda Guerra Mundial, provou que inimigos históricos podem transformar-se em aliados e também contribuiu ao longo de mais de seis décadas para o avanço da paz e da reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa. São tempos em que o mundo precisa de mais união, e não desunião.

 

 

 

 

 

 

 

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