Por que é tão difícil encontrar um lugar para morar em Londres

Em Londres, 8 mil pessoas encontram-se em situação de rua. Conforme dados da ONG Shelter, são mais de 250 mil moradores de ruas na Inglaterra. Por outro lado, quando se tem uma casa para morar, é difícil mantê-la. Há anos que Londres possui uma intensa crise de moradia devido aos preços inacessíveis tanto de compra como de aluguel. A média é de £1,543 por mês e apesar das tentativas de estabilizar de acordo com a inflação, uma pesquisa do Royal Institution of Chartered Surveyors indica que o valor do aluguel subirá 25% nos próximas cinco anos.

A capital da Inglaterra que mais sofre com a crise. Não há moradias decentes e acessíveis para boa parte de seus habitantes. Uma pesquisa de 2016 do YouGov apontou que 23% da população britânica não tem fundos suficientes para pagar o aluguel. Segundo a ONG StepChange, a quantidade de inquilinos em dívidas entre 2011 e 2015 cresceu 139%.

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Mais de 50% da população do Reino Unido acredita que a razão está por trás do aumento da imigração e do investimento de estrangeiros na compra de propriedades. Muitas casas são adquiridas, mas ninguém acaba se mudando. O número de casas vazias em Londres – incluindo mansões que custam milhões de libras – é grande, assim como o número de pessoas dormindo em condições desumanas nas ruas. Uma pesquisa feita ano passado pelo jornal The Guardian consta que 22 mil residências em Londres estavam inabitadas pelos seus donos por mais de seis meses – dessas 8,561 estão sem residentes por mais de dois anos e 1,151 não possuem um morador por mais de uma década.

Reprodução/The Guardian

Contudo, imigração, investidores estrangeiros e mansões vazias não são as principais causas. Apesar desses fatores influenciarem o problema, a verdade é que a crise de moradia  antecede o aumento da taxa de imigração. Londres é uma cidade muito pequena, mas muito populosa e não consegue absorver perfeitamente os 4,542 habitantes por km². A demanda – seja de imigrantes ou dos próprios britânicos – é enorme. Desde os anos 2000, a população aumentou 69%.

Nas charmosas casinhas da era vitoriana, pequenas e já superlotadas – não é raro encontrar pelo menos oito pessoas dividindo a mesma cozinha. A solução parece simples: habitações em altos prédios com vários apartamentos por andar. Mas outros obstáculos persistem. Prédios residenciais com mais de cinco andares são construções recentes e boa parte ainda está sendo construída, principalmente no leste da cidade. Nem sempre existe terreno suficiente ou disponível, afinal o espaço já é ocupado por uma residência ou por um edifício tombado, ou ambos. Uma análise da IBTimes UK afirma que seria necessário construir 42 mil residências por ano para atender a demanda. Aliás, construções de prédios altos comerciais e residenciais não agradam ambientalistas – nem quem preza pela arquitetura londrina, pois alegam que a cidade perde o charme e a identidade. De qualquer forma, existe uma grande escassez de mão-de-obra qualificada, como pedreiros, carpinteiros e canalizadores. Logo após a crise financeira de 2008, vários pequenos construtores entraram em falência.

Um dos outros motivos que originaram e intensificaram a crise são os investidores “buy-to-let”. Eles compram uma propriedade como investimento e alugam para terceiros, o que acaba limitando consideravelmente o mercado para quem quer comprar e morar.

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Reprodução/Matt Brown

A média dos salários em Londres é a mais alta do país, mas não significa necessariamente que os habitantes têm condições de realizar o sonho da casa própria e se sustentar sem dificuldades. Cerca de 70% acredita que não conseguirá adquirir um patrimônio sem ajuda financeira. Nos últimos anos, a média de preço de um lar subiu quase 50%, a maioria mal consegue pagar o aluguel que dirá uma propriedade. Mesmo com o preço lá em cima, quartos, casas e apartamentos alugados oferecem condições precárias. Em 2015, autoridades locais descobriram que 26 pessoas habitavam uma casa com três dormitórios em Newham (ao mesmo tempo falta espaço, pois hoje muitos decidem morar sozinho).

Quem vem à Londres estudar também não escapa. Mais de 75% das acomodações estudantis apresentam problemas como infestação de ratos e baratas e mofo. O relatório da União Nacional dos Estudantes de 2014 apontou que 25% das residências possuem vermes e que boa parte dos estudantes fica endividada devido ao preço do aluguel. Muitos jovens profissionais acabam decidindo dividir um quarto ou até mesmo morar em barcos como uma forma mais viável de acomodação.

A crise é grande, mas muitas pessoas tentam se aproveitar da situação e anunciam seus espaço exclusivamente para mulheres. A IBTimes UK levanta a questão que a “desigualdade e a misoginia alimentam a exploração sexual por aluguel“. No artigo, relata que diversos ‘anunciantes’ oferecem quartos, ou melhor, um sofá ou um pedaço da cama, desde que as mulheres estejam disponíveis para sexo “quando eles quisessem”. Além da subordinação sexual, a troca por um lugar para dormir ainda incluiria afazeres domésticos e palmadas “dez vez em quando”.

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Durante anos, governos após governos, Londres tenta sair dessa grande crise. Existem alguns programas de incentivo e apoio que oferecem garantias e assistência tanto a quem recebe baixos salários ou vive somente de benefícios quanto aos senhorios – mas ainda não é o suficiente.

O assunto está constantemente no topo da agenda política e nas discussões em época de eleições. É importante que o governo mantenha o mercado imobiliário mais aberto e flexível e fiscalize mais intensamente as acomodações. Já o crescimento da demanda e a escassez de habitações desafiam não só os prefeitos e habitantes da cidade, mas também os credores que têm feito uma contribuição significativa para o financiamento de casas, mas que necessitam de uma abordagem política que seja estável e sustentável a longo prazo.

Há projetos para construir 50 mil residências até o ano de 2020. Por hora, não adianta construir mais casas se elas não terão preços acessíveis.

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