Depressão de relocação

A experiência de morar fora de casa, fora do país, longe do papai e da mamãe pode ser muito diferente para cada um. Eu sempre vi como uma aventura, mas também acreditei erroneamente que ia me virar. Afinal, meus pais me criaram bem e nós, brazucas, paulistas somos capazes de viver – ou melhor – sobreviver a qualquer tipo de caos. E é exatamente onde me enganei. Eu realmente consigo sobreviver qualquer perrengue. Mas e quando o caos não é externo? Quando o caos está dentro de você?

No meu último post, há quase um mês, escrevi sobre esquecer e meio que perder quem realmente somos. Nós mudamos, nos transformamos numa nova versão de nós mesmos. Os pedaços que perdi de mim mesma foram letais, mal consigo lembrar quem eu era e por que eu era. Essa nova versão minha não me agrada. Parece que estou presa num corpo emprestado, atrelada à uma mente que não me pertence, anexada à uma vida que um dia foi minha, mas que resta muito pouco do meu eu verdadeiro.

Quando a gente morre, morremos sozinhos. E às vezes me sinto como se eu tivesse sido enterrada viva ou como se eu tivesse me afogando aos poucos, mas caindo tão profundo no oceano que é quase impossível voltar à superfície.

Isso tudo porque as peças que me compunham descolaram. Quando a gente sai do nosso habitat natural, saímos de nós mesmos e é preciso ter coragem para poder construir um novo universo que seja habitável e compatível com nossos sonhos, medos e esperanças. Tudo pode desabar uma hora ou outra e os tijolos vão se desfazer na sua cabeça, mesmo que você tenha uma boa estrutura. O vírus da depressão de relocação (ou uma profunda homesick) pode afetar qualquer um, até a pessoa mais animada e genuinamente feliz. Deixamos tudo para trás, inclusive nós mesmos. Muita gente fala para se aventurar no mundo e mudar de país ou coisa assim para sair da zona de conforto. Isso é o de menos. Existe a zona de batalha com nosso “eu” que elimina qualquer conforto. A depressão de relocação não é simplesmente porque mudamos de local, mas deve essencialmente porque estamos relocando nosso eu e nossa alma, nossos sonhos e receios, nosso futuro e passado, nossas certezas e incertezas. Estamos relocando toda a nossa vida. É uma nova vida dentro de uma antiga que não quer escapar.

Reprodução

Eu sempre achei que soubesse quais eram meus verdadeiros sonhos, minha vontades. Sempre fui determinada, decidida. Mas levei um choque elétrico tão forte que tudo o que eu pensava e tinha como certo, não sei mais. Se sentir confuso dói, mas mostra uma nova paleta de opções de onde podemos ir, onde podemos chegar, onde queremos chegar ou parar, onde vamos nos perder de novo.

A depressão de relocação põe em cheque tudo que fomos até agora pois temos que decidir onde iremos relocar nós mesmos e colocar nosso destino. É a questão de escolher o que seremos e esse tipo de decisão nunca é fácil, ainda mais se pode afetar outras pessoas além de nós mesmos. Relocar nossa vida toda é basicamente escolher entre ser feliz e não ser feliz. O grande problema é que não existe placa alguma indicando o caminho certo.

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