Quando a gente não sabe mais quem a gente é

Meu sonho sempre foi morar em Londres. Quem me conhece, sabe da minha história, sabe que esse sonho praticamente resume quem eu sou, ou pelo menos, quem eu era.

Eu não tinha percebido até agora que no momento em que eu entrei no avião, eu não só deixei minha família, meus amigos, minha casa, meu cachorro, minha coelha, minha vida, minha história, mas eu deixei uma boa parte de mim pra trás. E esse vazio imenso e dolorido tinha que ser preenchido. Aos poucos e cambaleante,às vezes aos solavancos, ou até imperceptivelmente.

Mudar pra um outro país é uma novidade, tudo é empolgante. No começo, principalmente. Tudo é novo, mesmo que eu já tivesse vindo para Londres cinco vezes antes. São novas esperanças, novas expectativas, novos amigos, novas ruas para se perder, novos lugares para conhecer, uma vida nova para descobrir.
Mas isso pra mim foi como o verão. Dias ensolarados, mas que têm seu fim. Logo, o inverno chega e leva aquele brilho embora. Tudo fica nublado, cinza, perdido entre as nuvens. A vida vem e mostra outras previsões de tempo, coisas que a gente jamais imaginou viver.

Mudar tudo radicalmente mesmo que num espaço não tão estranho, é difícil. Eu me acostumei fácil com minha vida em Londres, mas me desacostumar da minha vida no Brasil é quase impossível, como se eu perdesse ou esquecesse quem eu sou se isso acontecesse por completo. Prefiro sentir as dores de arranhões profundos por não me acostumar do que esquecer o que é acordar com o barulho insuportável de buzinas, de passarinhos histéricos e da minha cachorra latindo. Prefiro sentir a dor da solidão todas as manhãs do que me acostumar a não tomar café da manhã com a minha família e sentir o vazio dos sábados de pizza e almoços de domingo.

E por mais que minha rotina, meus círculos de amizade, meu endereço e meu guarda roupa tenham mudado, eu não mudei. Eu ainda sou eu, mas ao mesmo tempo não sou mais eu. E também não sei quem serei. Inocente ou até mesmo burrice da minha parte achar que mudando minha vida, eu iria continuar exatamente a mesma. Outras pessoas numa cultura diferente e com um cardápio imenso de novas experiências a escolher. Isso cria um impacto em nós e é impossível sair ileso.

Quando a gente embarca numa aventura, no final já não somos mais os mesmos. Mesmo que a jornada pareça inofensiva, aquilo vai machucar e deixar marcas. Muitas delas não cicatrizam nunca e sangram constantemente e para sobrevivermos à isso, temos que nos reinventar. Essa transição pode parecer mais assustadora do que realmente é, afinal, não vamos nos reconhecer mais por um tempo. É como se perder dentro de nós mesmos.  Caímos num buraco fundo, cada vez mais fundo e cada vez que você tenta escalar, ele fica mais fundo.

Eu não só mudei de país, de cultura, mas eu mudei por dentro também. Eu não sou mais aquela Érica. Embarquei sendo uma, desembarquei sendo outra já desde então. Acho que só a partir do momento que a gente aceitar isso, aceitar que tudo bem não saber mais quem somos, vamos conseguir sair do buraco dentro de nós mesmos.

Ser igual sempre é chato. Mesmo que a metamorfose doa todos os cantos de nossa alma, o resultado sempre vale a pena. A vida é isso.

Eu achei que eu estava perdendo quem eu era, mas só estou me tornando uma nova versão de mim mesma. Alguns pedaços têm que morrer para outros nascerem, e a gente assim ressuscitar das cinzas, ou melhor, da purpurina.

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