Vidas nubladas

Uma das coisas que eu gosto de Londres é que você conhece gente do mundo todo.

Converso com muitas pessoas todos os dias, ou quase todos os dias. Gosto de saber a história das pessoas, entender a cultura, o comportamento, como vivem a vida. Meu lado escritora talvez esteja sempre ligado, mesmo quando não escrevo, afinal muitas dessas pessoas comuns são como personagens incríveis, cada um com sua aventura particular ou seu sofrimento agridoce da sobrevivência ao dia dia. Aqui, vive-se um dia por vez e é um milagre ainda existir no final do dia. Gosto de falar com pessoas e fazê-las lembrar que de alguma forma elas ainda são humanas. Depois de um longo dia, talvez isso seja necessário – para mim, para elas – uma pequena faísca cintilando onde achávamos que nunca mais haveria luz.

Em um pouco mais de uma semana, conheci centenas de pessoas. Centenas de vidas, centenas de histórias, de sonhos, de dores, de esperanças.

Uma delas é Dora. Ela poderia muito bem passar como brasileira, pai do Sudão, mãe da Ucrânia, nascida na Inglaterra e um tom de pele moreno dourado. Parei para falar com Dora numa quinta-feira de manhã (ou foi numa segunda?) num bairro nobre de Londres. Contei pra ela sobre uma campanhas de Direitos Humanos, em resumo, como países são cruéis e sem escrúpulos ou lei e usam a tortura como forma de punição quando alguém simplesmente exerce o direito de liberdade de expressão.

Seus olhos estavam perdidos como se ela estivesse tentando olhar para dentro de si mesma, buscando encontrar algo sem saber exatamente o que era. Ela me disse que era sortuda de nascer e viver num país como a Inglaterra e que apesar de nunca ter experienciado o que acontece na África, ela sabia como era através de parentes. E então ela disse algo assim: “Coisas tão horríveis acontecem no mundo e nós achamos que nossos problemas são enormes! Existem coisas bem piores.”.

Eu podia perceber pelo seu rosto que ela tinha suas próprias batalhas. Tinha alguma coisa dentro dela incomodando sua alma. Lembrei do que minha amiga Mayara disse uma vez lá em 2008 (talvez nem ela mesma lembre o que disse hoje em dia rs) e falei: “Minha amiga uma vez me disse que temos dores proporcionais. Sua dor pode parecer maior ou menor às outras dores, mas só quem sabe sente. Talvez eu não aguentaria sua dor nem você a minha, não significa que uma seja pior e a outra melhor”. Eu realmente acho que nenhum tipo de sofrimento deva ser ignorado porque ele é insignificante se comparado à outras coisas. Cada um tem sua insustentável doçura e infelicidades. Cada um ao seu modo de viver, cada um com suas desaventuras.

Dora me contou também que ela precisava continuar tentando, fosse o que fosse o que tinha que tentar, porque tinha um filho e esse filho “precisava dela”, disse com ênfase e que agora havia a suspeita que sua mãe estivesse com câncer.

Tive uma boa conversa com Dora. Sei um pouco quem ela é agora. Quando conhecemos alguém, ela passa a existir como se antes fosse invisível. Nunca mais vou vê-la provavelmente e talvez não possa ajudá-la a mudar sua vida. Mas sei que ela existe. E quando você que está lendo isso, sabe também.

Algumas horas depois, ela me encontrou novamente na rua, tinha um sorriso estampado no rosto e aliviada disse: “Ah, resolvi os documentos que tinha que resolver”. Pelo pouco que sei dela, desejo onde ela estiver agora toda a sorte que precisar. Espero que ela viva uma boa vida.

Essa semana também conheci outras pessoas incríveis e sei que infelizmente a probabilidade de eu encontrá-las de novo para continuarmos nossas conversas é meio que nula. São pessoas que cruzam nosso caminho apenas por um breve momento de nossas vidas, mas causam um impacto infinito. E para a passagem súbita delas em meu caminho ser eternizada, escrevo sobre elas aqui. Pode ser que quase ninguém saiba o quanto essas pessoas e suas histórias são fantásticas, o mínimo que eu poderia fazer torná-las nobres através dessas palavras. Lá fora são normais, comuns, insignificantes, invisíveis. Mas aqui elas existem e estão mais vivas do que nunca. Pessoas assim que me fazem abrir os olhos e enxergar a vida de forma nítida.

 

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