Convênio médico

Ulisses deixou o trabalho às 18h09. Havia sido um longo dia na padaria em que era caixa há quase 16 anos.  Localizada no Itaim, bairro nobre de São Paulo, a padaria vivia cheia, graças à Deus — pensou ele — garantindo o emprego dele e dos outros 20 funcionários.  O horário de almoço era o mais tumultuado. Executivos e moradores do bairro acomodavam-se nas mesinhas ou no balcão para pedir o prato do dia, uma coxinha, um suco de laranja, aquele maionese da casa. Lá pelas 17h30, alguns empregados da empresa na rua da frente se aglomeravam na mesa da calçada. Trocavam o refrigerante e o chá mate por uma gelada, beeem gelada, faz o favor, com uma porçãozinha de fritas. Um pouco depois de escutar fofocas de trabalho, reuniões descontraídas e os planos para o final de semana do pessoal da firma, Ulisses fechou o caixa e Raul o substituiu para o próximo turno.

Ulisses era o queridinho da padaria. Sempre de bom humor, ajudava com conselhos quem precisava de um ânimo para a vida, principalmente os funcionários mais novos — aqueles que faziam um bico para levantar uma grana e pagar a faculdade ou pelo menos um cinema com a namorada, desde que fosse meia entrada.

Ulisses pegou o casaco de poliéster pendurado na área dos funcionários, atrás da cozinha. Era uma noite gelada de inverno na capital paulista. Nada muito intenso, porém; o clima andava meio louco, mas já estava frio o suficiente para pegar uma gripe de bobeira. Botou o celular novo no bolso do casaco — novo exatamente não era, ainda faltava pagar algumas prestações — e certificou-se se estava com as chaves do portão de casa e do bilhete único. Ajeitou sua carteira que ficava presa na cintura entre a calça e o cinto de couro. Supôs que ainda tinha alguns trocados caso não tivesse crédito no cartão do ônibus. É, acho que vai dar, pensou ele.

Ulisses se despediu de todos os seus colegas de trabalho e do Seu Oswaldo, freguês assíduo da padaria. Viúvo há quatorze anos, Seu Oswaldo tomava uma pinguinha vez ou outra. Não tomava mais do que três copinhos e depois pedia um café com leite e um pão na chapa.  Era assim toda semana, mas a rotina não o entediava, muito pelo contrário, era bom sair da casa mofada, que ainda cheirava ao velho perfume de sua falecida esposa.

Ulisses caminhou três quarteirões até chegar ao ponto de ônibus. Estava lotado como de costume. As pessoas se aglomeravam na porta dos veículos que chegavam já lotados. Era um empurra-empurra para tentar se misturar na multidão. Os cheiros também se misturavam, mas os sonhos de cada um ficavam espalhados e perdidos pelo ar. Era uma vida limitada, frustada e quase mecânica. Acordar cedo, ficar parado no trânsito, trabalhar até a exaustão, ser esmagado no transporte público — ser esmagado também pelo governo e seus impostos nada bem-vindos.

Por sorte, o ônibus de Ulisses estava praticamente vazio. Ele disse um boa noite educado ao motorista e ao cobrador e logo se acomodou num assento ao fundo.  Ulisses gostava de ficar perto da janela e ver aquelas luzes cintilantes dançando na noite. Ao invés de ouvir o ronco dos carros e as buzinas enlouquecidas, escutava suas músicas preferidas do Seu Jorge, salvas em seu celular.

Passavam das oito horas quando Ulisses se deu conta que estava com muita fome. Mas parado no trânsito típico e raivoso de São Paulo, teria que esperar mais um bom tempo até chegar em casa e saborear a comida caseira de sua família. Seu filho mais novo, Adriano gostava de cozinhar e tinha muito jeito. Quando dava na telha, testava uma receita nova. Ulisses sentiu uma dor faminta só com o pensamento em comida. Mas a dor vinha mais acima do estômago e começava a se intensificar. De uma hora para outra, Ulisses começou a se sentir muito mal e então caiu no chão com estrondo.
— Ôh, rapá. — exclamou com espanto o cobrador sentado mais a frente. — Você está bem? — perguntou indo até ele e depois deu umas sacudidas em seu ombro de leve.

Ulisses não conseguiu responder. Sua boca estava seca, ele se sentia fraco e suava frio. A dor no peito parecia como fortes agulhas perfurando sua pele, mal permitindo que Ulisses respirasse. Um pouco assustado, o cobrador pediu ao motorista que mudasse a rota e acelerasse em direção ao pronto socorro mais próximo. As duas únicas outras passageiras do ônibus pareciam aflitas.
— Acho que ele tá tendo um infarto — falou uma das senhoras com a voz trêmula. A outra arregalou os olhos e fez o sinal da cruz.
— Jorge, dribla esse trânsito, rapá! — exasperou-se o cobrador — O cara tá quase morrendo aqui! — O motorista Afonso fez o que pode para virar à direita o mais rápido possível. Pegou um atalho e chegou sete minutos depois no pronto socorro mais perto de onde estavam. Afonso parou o ônibus, tirou a chave e ajudou Jorge a carregar Ulisses até a porta do pronto socorro.
— Ajuda pelo amor de Deus! — gritou ele na recepção.
Um enfermeiro que estava de passagem olhou para o trio de esguelha. Deixou uma prancheta com a recepcionista e só então se virou para eles:
— Qual é o convênio dele?
Qual é o convênio dele? Mas que diabos de pergunta é essa, se irritou Jorge. E eu sei lá, pensou.
— O homem tá tendo um infarto, moço. — explicou Afonso. O motorista havia ido diversas vezes ao longo de sua vida à um pronto socorro. Não entendia de procedimentos médicos, mas tinha a certeza absoluta que quando um possível paciente passasse pelas portas à beira da morte essa não seria a primeira pergunta.

O enfermeiro insistiu em saber de Ulisses tinha convênio ou não. Ulisses estava agonizando de dor, parecia que ele ia rachar ao meio, todavia, reunindo todas suas forças disse ao tal enfermeiro que não tinha convênio médico. Sem demonstrar emoção nenhuma, o enfermeiro disse:
— Aqui só atende particular e quem tem convênio, senhor.
A vontade de Jorge era de quebrar a cara desse enfermeiro sem vergonha, mas Afonso o impediu. Os dois deitaram Ulisses na calçada. O corpo mole, implorando silenciosamente por socorro.
— Se controla, moleque ou tu vai piorar as coisas. — pediu Afonso mais uma vez à Jorge que estava profundamente angustiado. Ele gritava na recepção para alguém atender Ulisses, mas ninguém lhe deu atenção. Uma enfermeira se aproximou e disse que havia telefonado para o Corpo dos Bombeiros.

Afonso não depositou muita confiança na mulher e por isso tentava ele mesmo ligar para os bombeiros. Suas mãos tremiam de nervoso  — maldito touchscreen, disse à si mesmo. Bufou. Conseguiu finalmente discar o número. Ele não conhecia Ulisses muito bem, mas mesmo não sendo parentes ou amigos próximos, Afonso sentia uma profunda simpatia para seu freqüente passageiro. Ninguém merecia ser tratado daquele jeito.

Ulisses se contorcia de dor no chão. Jorge gritava por ajuda. Algumas pessoas que passavam pelo local se solidarizaram. Ligaram mais uma vez para os bombeiros, para a polícia, para um conhecido que era médico, para quem fosse e confortavam Ulisses com algumas palavras de forma gentil.
— Calma, senhor. O socorro já vai vir.
Dois enfermeiros que havia acabado de chegar para seu turno tentaram ajudar Ulisses, mas foram impedidos pelo primeiro enfermeiro. Então, o socorro finalmente veio. Só que mais de uma hora depois. Ulisses estava vivo ainda, mas inconsciente. Depois que resgate prestou os primeiros socorros, Ulisses foi colocado numa ambulância que disparou pela avenida em direção a outro pronto socorro.

Duas horas depois, Jorge e Afonso souberam que Ulisses não resistiu. Pai de família, trabalhador honesto, foi tratado como lixo, foi sim — repetia Jorge sem parar.
— Só porque somos pobres acham que somos vermes. Convênio médico! Vá pra puta que te pariu com essa bosta de convênio médico.

Ainda nervoso, Jorge procurou a família de Ulisses no hospital que fora atendido. A família estava visivelmente abalada. A mulher, os três filhos, choravam abraçados num canto. Jorge decidiu fazer um boletim de ocorrência na delegacia. Não que trouxesse Ulisses de volta, mas era o mínimo que podia fazer. Ele foi acompanhado da irmã de Ulisses, Soraia, à quem ele contara toda a história de omissão de socorro horas mais cedo. O delegado disse que iria investigar o caso, mas que antes deveria aguardar o laudo do Instituto Médico Legal (IML).

Jorge sabia que o tal laudo ia dizer mentiras. Iria constar que Ulisses morreu por causa de um infarto. Mas Jorge sabia a verdade. Ulisses morreu por causa da omissão de socorro, por causa do desprezo, do descaso. Morreu porque era pobre, porque era negro, porque era visto como um ninguém, era invisível aos olhos desumanos, porque sua vida parecia ser sem valor, porque ninguém mais tem coração nesse mundo. Ulisses tinha coração grande, mas que deixou de bater. Ulisses morreu porque não tinha uma porcaria de convênio médico.

Anúncios

Um comentário em “Convênio médico

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s